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De sem-abrigo a actor

Para começar esta nova rubrica “Repórter de Memórias”, nada melhor que começar por mim próprio.

Nasci em Alcântara em Lisboa no ano do Dragão-1964. Abandonado pela mãe e criado pelos avós paternos. Cresci num colégio de cegos, mas antes, passei pela Centro Infantil Helen Keller e pela Casa Pia de Lisboa. Muito agarrado aos avós, que vivendo quase na miséria, nunca deixaram de me amar. Aos 18 meses, o Sarampo saltou-me á vista e quase me cegou. Não tive amigos, a família nunca me quis, nunca me acarinhou e andei sempre com os meus avós.
Foto: Rogério Rosa
Quando morreram, eu já estava no colégio de cegos, chamado Instituto António Feliciano de Castilho em Campo de Ourique. O meu pai apareceu, tinha já 4 anos. Saí do colégio aos 15 anos, e fui para casa do meu pai, mas como nunca houve afecto, a minha vida acabou por ser um mundo a parte do que eu estava a costumado e daí, ter crescido muito rapidamente só.

Tornei-me um sem-abrigo, durante 1 ano, dormi na rua, em jardins e numa pensão, onde estavam mais ou menos 12 indivíduos do pior. Preferia dormir na rua, já que na pensão, roubavam as coisas, sempre que se aproximava a Feira da Ladra. O tempo foi passando, e com limitações visuais e sem amigos, fui criando o meu mundo protector. Andei de escola em escola,, depois, parava e regressava.
 
Mais tarde, um emprego efectivo, deu-me a estabilidade. Sabendo que não tinha sonhos, e nem podia ser quase nada, acabei por provar o contrário. Fui escuteiro, bombeiro e até experimentei e fui desfilar numa marcha popular, a Marcha de S. Vicente. Continuei no teatro, desde o colégio, e comecei a cantar, concorri ao”Chuva de Estrelas”, sem sucesso. Deixei a musica e estreei-me na tv, no programa ”Vidas Reais” com 2 personagens diferentes e mais tarde na novela da tvi “Doce Fugitiva”. No cinema, a estreia deu-se num filme chamado “As Maltratadas” no papel de “doente mental” chamado”Manuel Patolas” e já la vão 18 filmes, 5 novelas, 6 séries e 10 peças de teatro. 

Foto: Rogério Rosa
Estudei, entrei na faculdade. Primeiro no Instituto Superior Ciências Educativas na licenciatura em Educação Social e mais tarde em Serviço Social, na Universidade Lusófona. Cresci assim, sem amor, sem carinho, sem apoio e mesmo assim, com 76% de incapacidade visual, hoje, sou como sou, graças a mim, á minha luta, persistência e sou voluntário há 27 anos, pois devo passar a mensagem de coragem e de força para se ir em frente, como eu, que tinha tudo para não dar certo. Sou cronista numa revista online,tenho blog, aestrelaquehaemmim.blogspot.com, tenho paginas no wattpad e sou agora Repórter de

Memórias. Memórias estas, que podem ser uma lufada de esperança, de motivação para quem acha, que lutar, já não vale de nada. Apoio um grupo de teatro amador constituído por cegos e sem carinho do publico, nem divulgação, apoio-os e divulgo-os eu na tv, rádio ou imprensa escrita, chama-se Acreart -Artes Cénicas na Baixa de Lisboa.

Não deixem de lutar. Os sonhos são para se cumprir.

Escrito por: Rogério Rosa

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