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O Larápio que conhecia a palavra gratidão

O meu avô paterno nasceu em 1899. Costumava dizer que nasceu um ano antes da "era"- Mais propriamente a 23 de Novembro. Homem alto, magro, sempre vestido com a mesma indumentária: calça justa, camisa com cós, cinta e barrete preto, colete e botas de cabedal. Sempre que saía vestia a jaqueta de veludo preta e botas, também pretas, engraxadas na perfeição.
Foto: Emootiva Memória
Era agricultor, vitivinicultor e comerciante de frutas: ou seja comprava os frutos, com as árvores ainda em flor. Através do borda-d’água e com a experiência adquirida ao longo dos anos (o pai tinha sido avaliador de pomares da Câmara) raras eram as vezes que os negócios lhe corriam mal.

Quando os frutos amadureciam (cerejas, maçãs de todas as variedades, lembro-me a maçã de espelho, que já não existe, penso eu, pêras, ameixas ou seja, quase todo o tipo de frutos) cerca de duas dezenas de mulheres, corriam os pomares, subindo às árvores, com os cestos de vide nos braços, e lá iam colhendo e cantando, trabalhando até ao amanhecer. Na época não havia horários de trabalho.

Muitas vezes, nos fins-de-semana e nas férias, ainda pequena, as acompanhei, pois uma irmã da minha mãe, também minha madrinha, lá trabalhava, compartilhando com elas o belo pão de milho com petingas assadas nas fogueiras que faziam.

Toda a fruta era levada em carroças de bois e de burros, para a adega do meu avô e depois de "encanastrada" como diziam, pela minha avó materna, especialista nesta área, eram enviadas, numa camioneta para Lisboa e entregues a um receptor, amigo do meu avô, que tinha a função de as vender.

Ria me muito quando o meu avô dizia que Lisboa era "uma grande loba", vendia-se tudo.

Duas vezes por ano, lá se deslocava à capital, de autocarro, na altura "camioneta de carreira", levando um saco onde escondia o dinheiro, confeccionado pela minha avó, atado à cintura e sempre na parte de dentro das calças. Não fosse o diabo tecê-las, como dizia.

Comia sempre no mesmo restaurante "O João do grão", julgo que na rua do coliseu. O repasto era sempre o mesmo: grão com bacalhau. Nunca comia carne fora de casa.

Um certo dia, numa destas suas deslocações, sentado à mesa do restaurante já pronto para almoçar, apareceu-lhe à frente um rapaz (homem já feito como dizia) que o cumprimentou tratando-o pelo nome, pedindo-lhe se o podia acompanhar na refeição. Quando o meu avô olhou com atenção, reconheceu-o de imediato. Pertencia a uma família muito pobre, com imensos filhos, que viviam num barracão numa aldeia vizinha.

Quando o rapaz tinha uns 8 anos o pai foi pedir ao meu avô se lhe arranjava um trabalhito. Era mais uns tostõezitos que entravam para sustento da família e com sorte os patrões ainda lhes davam de comida. Com pena do pequenote (o meu avô era um coração de oiro), lá ficou por casa, fazendo uns trabalhos leves. Mandou comprar-lhe um par de botas (pois andavam descalços) pedindo á minha avó para lhe arranjar umas roupas.

Anos mais tarde tinha-lhe perdido o rasto. Ouvia o povo dizer que se tinha juntado ao bando do Zé Telhado (Chefe da quadrilha mais famosa da altura, Zé do Telhado era conhecido por "roubar aos ricos para dar aos pobres" e, por isso, muitos o consideram o Robin dos Bosques português).

Mas adiante. Com um sorriso que lhe era peculiar, o meu avô mandou-o sentar. Fez questão de se sentar numa cadeira em frente. E ali estiveram à conversa, quase até a hora do autocarro partir. Fez questão de pagar o almoço dos dois e de acompanhá-lo até ao apeadeiro.

Sempre conversando, perguntando por pessoas conhecidas de ambos, enquanto o meu avô o ouvia (ou não ouvia) com o coração apertadíssimo, pois levava no saco umas boas dezenas de contos de réis.

A caminhada durou um quarto de hora, que para o comerciante em causa, pareceu uma eternidade.

Para grande satisfação e alívio do meu avô lá chegaram.

Quando pararam e o meu avô ia agradecer a companhia e tudo o resto, para se ver livre dele, o sujeito olhou de frente para o conterrâneo e perguntou: Então Ti Ângelo, veio receber o dinheiro da fruta? Aqui acho, que o meu velhote sempre que contava esta parte mentia, para não mostrar parte de fraco, mas decerto nem teve fôlego para lhe responder.

Calmamente, ele retirou do bolso das calças o saquinho do dinheiro, entregou-o dizendo: faça favor de contar, está aí todo. Saiba o senhor em tempos, foi tão bom para mim, nunca o esqueci e várias vezes o tenho seguido de perto. Mas desta vez o dinheiro comigo estava mais seguro.

O meu avô até morrer (faleceu com 90 anos perfeitamente lúcido) contou esta história talvez uma centena de vezes, não exagero, e sempre jurou que o homem nunca se tinha encostado a ele.

Escrito por Maria Cruz

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