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Tinha 9 anos e uma marca de ferro de engomar nas costas

Parece impossível....mas é verdade...um caso que resolvi...mas infelizmente existem muitos por resolver.
Foto: Emotiva Memória
Tinha 9 anos quando começou a frequentar o 2º ciclo. Marta (nome fictício) era uma criança frágil sempre com um sorriso terno, vestida com roupa muito usada, muitas vezes não adequada para a estação. Comecei a notar que a irmã, um ano mas velha, andava sempre bem arranjada, tinha um ar altivo e pouco ou nada se relacionava com a Marta.

Era de facto muito estranho, dado que conhecia também a outra irmã mais nova, tal como a mais velha, bem vestida passeando pelo jardim da aldeia, de bicicleta e com toda a atenção da mana mais velha e da mãe. A Acção Social da escola começou a entregar-lhe roupa e calçado, que nunca víamos no corpo da pequenita. Notámos que toda a roupa melhor, era vestida pela irmã mais velha. Muito estranho!

Pedimos á auxiliar que tomava conta do ginásio e lógico também do balneário para tentar averiguar, durante os banhos, o corpo da menina. Porém a aluna fechava-se sempre e começou a ser impossível. Por aqui, nada podia observar.

Como começou a ficar cada vez mais magra, foi-lhes atribuído os pequenos-almoços e lanches. Às duas para não parecer estranho.

Notávamos que havia negligência com esta menina e, desconfiávamos de maus tratos. Mais estranho ficou a situação, quando parte da população da aldeia pensava que este casal só tinha duas filhas: a mais nova e a mais velha.

Quando a Marta frequentava o oitavo ano, sempre uma excelente aluna, pensei que o caso, de facto tinha que ser resolvido e com urgência. Quando apareceu com a cara inchada e com hematomas, resolvi chamá-la para saber o que tinha acontecido.

Contou uma história perfeitamente credível: Tinha caído na escada e batido com a cara no corrimão. A mim não me convenceu. Pedi à Presidente do Conselho Executivo que a chamasse e lhe perguntasse o mesmo como se ninguém ainda nada lhe tivesse sido questionado. Muito reservada, contou a mesma história, de tal modo que convenceu a senhora.

Teimando, consegui que alguém lhe visse as costas, não me recordo quem, mas sei que a pessoa ficou horrorizada: tinha a marca de um ferro de engomar marcada nas costas, ou seja tinha sido queimada.

De imediato seguiu uma sinalização para a CPCJ (COMISSÃO DE PROTECÇÃO DE CRIANÇAS E JOVENS - CPCJ). No entanto o caso estava a demorar e as férias grandes a aproximarem-se. Falei com vizinhos e consegui a informação, só comia depois de todos terem tomado as refeições, ou seja comia o que sobrava, se sobrasse. Quando saiam ficava fechada á chave no quarto tendo muitas vezes de urinar no chão.

Começaram as férias e deixou de ser vista. Mas uma vizinha dizia que só a via à noite a despejar o lixo.

Não podia efectivamente deixar passar mais tempo. Telefonei á CPCJ e atendeu-me uma senhora, que conhecia o caso, e me aconselhou a pedir a várias pessoas da localidade que entrassem em contacto com a CPCJ contando a versão dos factos.

Assim fiz. Consegui seis pessoas de boa vontade que o fizeram. No dia seguinte Marta foi retirada aos pais e entregue a uma pessoa de família. Um médico amigo que a observou disse que ela estava a alimentar-se da massa muscular (penso que estou a utilizar bem o termo).

Hoje, passados sete anos, é uma jovem linda. Tem emprego, carro próprio (que comprou com o seu dinheiro) e uma vida normal, vivendo com a família que a acolheu e é uma jovem com ar feliz.

Quanto aos pais e irmãs não fala deles. Por sua vez as irmãs, quando lhes perguntam quantos irmãos são, dizem que são duas. A mãe tem sempre um sorriso nos lábios, dando a entender que tem uma família exemplar.

Quanto a mim entrei em depressão e atestados médicos. Pedi a aposentação.

Este tinha sido talvez o meu 20º caso, mas o mais profundo e marcante.

Ainda hoje penso que podia ter resolvido mais cedo este caso. A partir dessa altura, não me senti mais à altura das funções que exercia e "obviamente demiti-me"

Escrito por Maria Cruz

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