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Uma história comovente de um FERRADOR que trabalhou até aos 84 anos

Quase todos os dias, essencialmente quando estou só, com uma certa nostalgia, lembro-me das pessoas que amei, que me marcaram e que já partiram.
 
Foto: Emotiva Memória
Um deles era o meu tio Zé. Meio-irmão do meu pai, homem com ar severo e às vezes antipático, mas que para mim sempre foi um doce. Julgo que nunca ninguém soube o significado que essa figura, sempre com a camisa fora das calças, significou para mim. Tínhamos uma enorme empatia.

Podíamos estar anos sem nos vermos, mas quando nos encontrávamos era como se tivéssemos estado juntos no dia anterior. A pergunta dele era sempre a mesma. Então rapariga, tás boa? Eu respondia também o mesmo: Estás na mesma Zé. Éramos na verdade uns ausentes sempre presentes.

A palavra tio, era quase sempre engolida. O meu Zé tinha uma história muito interessante. Quando o meu avô paterno estava noivo da minha avó, teve um "deslize com outra mulher, diziam que era mais velha que ele. Nunca soube o nome dela, nunca tive curiosidade de ver o B.I. do meu tio. Entretanto engravidou e morreu no parto.

Como ela não tinha família o meu avô entregou o bebé aos cuidados de uma vizinha. Cuidou dele até aos seis meses, altura em que o meu avô casou. A partir daí a minha avó cuidou dele, como se de um filho se tratasse.

Dizia ela que o meu pai às vezes tinha uns certos ciúmes. Trataram-se sempre por "manos". A minha avó, mulher frágil, tinha dificuldades em ter filhos. Engravidava e quando os bebés nasciam duravam umas horas e faleciam. O meu pai, quarta gravidez, foi o único sobrevivente, como ela dizia. Nasceu com 750 gramas, mas com muitos cuidados médicos, lá resistiu. Nunca foi muito saudável.

Mas continuemos com o meu tio. Apesar do meu avô ter algumas propriedades, nem ele nem o meu pai gostavam de trabalhar no campo. Nunca ajudaram o pai, mas o meu avô nunca reclamava muito. Dizia sim que eles tinham que escolher uma profissão, para mais tarde governarem a vida.

Quanto ao meu tio começou por ir aprender de talhante, não resultou. Mais tarde disse ao pai que gostava de ter um rebanho de ovelhas. Foi-lhe feita a vontade, mas não fosse o pai arranjar um pastor, que os animais morriam à fome. Outra desilusão para o meu avô.

Um certo dia foi a um baile, numa povoação vizinha e enamorou-se da uma das filhas de um ferrador da terra.

No dia seguinte comunicou ao progenitor que já sabia o que queria fazer: Ferrador. Desgostoso o meu avô foi contra, pois achava não ser um ofício bom.

Disse que no dia seguinte lhe daria a resposta. Claro que a minha avó decerto teve a sua cota parte na anuência á dita aprendizagem. Claro que o mestre dele seria o pai da sua namorada.

Podes ir, disse o pai, se é isso que queres, mas vais viver por tua conta, pois não te vou ajudar. A minha avó interferiu em defesa dele, tentou sensibilizar o marido (o ferrador mal podia sustentar a família, quanto mais um elemento a mais, habituado a comer bem). O meu avô estava irredutível: Nem um tostão!

O meu tio lá foi, claro que com a ajuda da minha avó, que todas as semanas lhe enviava, por terceira pessoa, numa caixa de fósforos vazia, vinte escudos lá dentro. Bastante dinheiro para a época.

Do ofício o meu tio aprendeu rápido, pois ao fim de uns meses apareceu em casa, acompanhado da namorada.

Como a mãe biológica tinha deixado de herança uma casa ao meu avô, ficou lá instalado, contando desta vez com o pai para mobilar e apetrechar o lar. Pouco tempo depois o meu avô foi com ele á conservatória, passar a casa para o nome dele, pois tinha pertencido à mãe e tinha todo o direito a ela.

Para poder continuar a profissão o pai mandou arranjar uma "oficina" e comprou-lhe a maquinaria necessária para iniciar a actividade.

Era aí que, eu ainda pequena, passava algum tempo a vê-lo trabalhar: Desde ferrar cavalos, a fazer partos a animais, curá-los das maleitas, e também passou a ser chamado para "consultas ao domicílio".

É que desde que abriu a oficina começou a comprar livros de veterinário. Fez as ditas consultas quase até morrer, aos 84 anos.

Como ajudou a cuidar dos netos, hoje dois deles são veterinários.

Um dia vendeu um burro a um cigano. O burro já velho tinha lá sido deixado quase a morrer. Com umas injecção rápido arrebitou. O cigano levou o animal, pagou só que passada uma semana... O burro morreu. Recordo-me o cigano aparecer a ralhar, a dizer que ele o tinha enganado. Disse ao cigano que a culpa tinha sido de alguma erva que o animal tinha comido. A culpa não era dele de certeza. Ainda ouvi o homem dizer ao meu avô: “e ainda dizem que os ciganos é que são vigaristas”.

O QUE É CERTO É QUE CONTINUARAM A SER AMIGOS E A NAGOCIAREM.


O Zé nunca foi a um funeral, a brincar dizia-me: ele depois também não vai ao meu. Mas não era isso. Só eu sabia que debaixo daquela carapaça rudesca, estava um homem sensível.

Há cerca de trinta anos teve o maior desgosto que um pai ou uma mãe podem ter: o meu primo, com 41 anos de idade faleceu de AVC.

Eu estava em Macau. Nunca lhe telefonei, nunca lhe escrevi, ao longo dos anos quando falávamos do meu primo era como se ele estivesse vivo. Eu sei que ele sabia, e era o que queria, que nunca iria receber telefonema, nem carta minha. Compreendíamo-nos, mesmo á distância estávamos juntos no desgosto. Nunca perguntei a ninguém, mas tenha a certeza que o Zé não chorou. Exprimiu o sentimento a falar, insurgir-se, barafustar contra tudo e contra a todos. Ele era assim.

Dois anos antes de partir tinha-me pedido que não colocassem a foto dele no jornal. Comuniquei à minha prima.

Não fui ao funeral, sei que ele não quereria. A brincar, em tempos tínhamos falado disso e nem precisávamos ter falado. Como disse, era como se houvesse uma telepatia. Sei que descansas em paz Zé. Nunca te esquecerei.

Escrito por Maria Cruz

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