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Desculpa! Trai-te… Mas não queria…

“A minha namorada é uma das raparigas mais bonitas da minha cidade. Não digo isto de pulmões cheios ou com o orgulho normal de que um namorado se gaba da mulher que tem ao lado, mas tem qualquer coisa desde muito nova, que fez com que fosse o primeiro amor de muitos dos homens que por aqui andam. Ela não deve saber de metade, e também certamente já foi para a cama com muitos que nem os conhece. As pessoas gabam-se sempre do que não podem ter, e certamente tê-la nem que seja num sonho erótico qualquer para acordar e contar, é melhor do que não a ter de todo.
Foto: Só Para Mulheres
É morena, tem um brilho diferente nos olhos e anda sempre na rua com demasiada confiança. Ás vezes pergunto-me o que é que lhe passa na cabeça quando atravessa ruas cheias de gente, com tanto para contar dela. Ela nunca se pareceu importar, sei lá. Não sei se é defeito, feitio, ou se é uma capa que tem desde nova, mas raramente a vi chorar ou ir-se abaixo por a maldade que a rodeia.
 
Tive-a tanto tempo a dormir ao meu lado, maquilhada, desmaquilhada, com lingerie de cores choques ou com pijamas da avó, com sono ou sem vontade de dormir a noite toda, que com o tempo a beleza dela tornou-se indiferente aos meus olhos. Gostava quando comentavam que a mulher com quem andava ao lado me ofuscava a todos os níveis, mas tomei-a por certa. É um erro muito cliché, mas fazemos isso constantemente. Sabia que não ia passar um dia em que não me ligasse, mandasse uma fotografia com uma roupa diferente, ou me perguntasse se ainda a amava.
 
Sempre foi a mulher mais confiante do mundo, não se deixava intimidar por ninguém, na cabeça dela as únicas mulheres que lhe igualavam eram as melhores amigas, mas as mãos tremiam-lhe e o estômago vomitava antecipação sempre que me mostrava menos receptivo por ela ao longo dos anos. Eu amava-a igual todos os dias do ano, mas perdia apetite por lhe dizer o mesmo todos os dias. Ela não, eu sim.

Nem sei porquê. Voltando atrás e vendo as nossas fotografias, a forma como um dia olhou para mim e me tratou, pergunto-me onde tinha a cabeça. É claramente mais bonita, mais inteligente, ouve-se uma música inconsciente quando anda, e o bar pára quando ela entra. Os homens deixam as mulheres com quem estão por segundos e olham-na pelo canto do olho. Só me apercebi disso quando ela me deixou.
 
A independência, a forma extrovertida de ser e o nariz empinado com que sempre enfrentou as ocasiões menos boas da vida, assustou-me.
 
É verdade, os homens têm medo de mulheres bonitas demais. Têm medo de mulheres que respondem sempre, e que são tão bonitas arranjadas como de rabo-cavalo e calça rasgada. E ela era tudo isso a multiplicar por cem. Ela era quase tudo o que tinha na mão. E um dia bebi demais.
 
Procurei a gaja mais feia da discoteca, ou então ela é que me procurou a mim, e do resto não me lembro. Lembro-me só do quanto feia era ao pé dela. Do quanto falava mal, do quanto era desproporcional em todos os sentidos e do quanto era fácil. Foi muito fácil, e eu então perco a batalha nos defeitos porque ainda hoje quando me lembro faço uma expressão de nojo inconsciente. A minha namorada tinha sido difícil, dormiu meses vestida ao meu lado e sorria-me inocentemente sempre que lhe dizia que era bonita.
 
A outra sorria só a cheirar a alcóol da boca, com a ideia que poderia vir a lucrar mais tarde, não houve lucros para ninguém, parti só um coração, e desmanchei uma auto-estima enorme e um nariz empinado.
 
Assustei-me com uma mulher bonita.
 
O pior erro de todos os homens, ao compreendermos que nunca vamos ser melhores sem “ela” ao lado, atiramos-nos para um precipício, como se a nossa pil@ nos gritasse “Estás errado”. Lutamos contra essa ideia, porque é impensável para o nosso orgulho uma mulher representar quase tudo na nossa vida. A famosa luta da pil@ contra o coração.
 
Como todos os cobardes mandei-lhe uma mensagem “Desculpa, traí-te”. Calou-se e fez-se silêncio tanto tempo, que a falta da voz dela tornou-se na maior ressaca da minha vida. Tremia, emagrecia, bebia muito e as gajas feias rodeavam-me cada vez mais. Estava numa espiral, das piores, porque fui eu que saltei para lá. Ninguém me empurrou, me magoou ou me deixou. Eu deixei-me a mim mesmo.
 
Reencontrei-a meses depois, mais bonita que nunca, com um riso ainda mais alto e histérico. Uma roupa que se via à distância e uma maquilhagem que dizia “já esqueci o meu ex-namorado”.
 
Quando me viu sorriu, foi ao pé de mim e passou-me a mão no rosto. Caí num pranto e a pil@ cedeu à batalha, ela era o meu único e maior orgasmo mental. Quando esperei ouvir um “Vamos juntos para casa?”, no meio de tanto êxtase, lágrimas, amor e beijos para pôr em dia, no meio do sorriso mais bonito e outrora inocente, disse-me apenas “Não tem mal, eu também”.”
 
Fonte/Autor: Inês Alegre

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