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O dia em que olhei para ti

Na minha cabeça a ideia de ficar ligada a alguém parecia irrealista e absurda. Não é que fosse muito racional mas o sabor da liberdade e o cheiro da escolha eram bastante apelativos. Ser despreocupada e não ter me que preocupar com coisa alguma, enchia os meus dias de satisfação e alegria. Andar sem rumo, sem buscar nada a não ser o que me apetecesse no momento era divinal. Ninguém é de ninguém e nada me faria mudar de ideias. Ser diferente não me incomodava e só consegui entender isso quando passei por uma experiência que me marcou para sempre.
Foto: Casanovadobairroalto.wordpress.com
Era mais um dia, como os outros, em que nada de especial estava programado a não ser os planos, que não eram meus, aparecerem para me desafiar. Olhei para ti e o meu coração começou a bater. Estaria parado antes desse momento? Era um som tão alto que pensei que se ouvia, que ecoava e que conseguia chegar a quem eu queria.

Sim, as tais amarras foram crescendo, lentamente, sem eu dar conta e tu e eu passámos de singulares a plural. Bolas! Estava perdidamente apaixonada! Foram tempos de alegria plena, de deixar de entender o que era real e de viver aquilo que realmente me interessava. Estávamos juntos! Era o tempo de cerejas e de outras frutas doces e melodiosas que cantavam aos nossos ouvidos canções de embalar. Seria possível que fosse assim tão gratificante aquele sentimento?

E então aquele dia, o tal em que nos conhecemos, passou a ser comemorado. Uma vez, outra e mais outra e outras e as nossas mãos nunca deixaram de se dar. O som do meu coração passou a estar afinado e em sintonia com o teu e batia em uníssono, tão forte que pensei que rebentava de emoção! Depois a vida decidiu que não podíamos ser separados e que só assim poderíamos funcionar.

Agora, após estes anos todos, olho para trás e vejo que o absurdo me foi agradável, o irracional nunca existiu e que fui um sortuda por ter ouvido aquela vózinha que me chamava, baixinho, suavemente e me obrigava a olhar para ti. Continuo a ser diferente, eu sei, porque a força com que sinto não esmoreceu, não desapareceu nem se tornou difusa. Ela continua, em pleno, na nossa conjugação de vida que continuamos a escrever. As manhãs são claras e límpidas e os pássaros cantam para nós, partilhando melodias que nós entendemos e nos fazem ainda rir. Os nossos corpos ouvem a chamada e não se fazem rogados e o amor, a tal palavra que faltava referir, continua a ser escrito, todos os dias, com letra maiúscula e em todos os modos e tempos. E o nosso rumo, o nosso caminho é trilhado com serenidade e paixão, reinventada todos os dias, em todos os momentos e em todos os pensamentos. E é então que entendo que sou livre porque sou feliz!

Margarida Vale  | Fonte: Sabes Muito

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