Arrependi-me, mas foi tarde de mais - Aconteceu na minha VIDA
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Arrependi-me, mas foi tarde de mais

As palavras caem como bombas no interior de duas pessoas que se amam.


Gostava de evitar as mais duras, as que acontecem antes do arrependimento. Quantas felicidades se perderam por arrependimento tardio? Basta um ou dois segundos de atraso e o edifício derriba – um castelo de cartas doentio, obsessivo, sufocante. É impossível respirar por dentro do que podia ser e não é porque houve palavras que foram longe demais: o problema das palavras é não terem coleira. Ninguém sabe onde acaba uma palavra: é um vírus que se propaga, sabe-se lá até onde.
Foto: Julie de Waroquier
Ninguém segura uma palavra em liberdade.

Tudo para te dizer que ontem falaste demais. Disseste em poucos segundos as palavras que não posso suportar: não sou feliz. Posso aguentar tudo menos a tua infelicidade. Provavelmente o amor não devia ser assim, provavelmente haverá uma outra forma de amor, na qual quem ama só quer, a todo o custo, doa o que doer, quem ama ao seu lado. Mas eu não amo assim. Só te quero se for eu, no mínimo, a causa maior para a tua felicidade. Basta duvidar que é assim para desistir. Sou um fraco, eu sei. Ou então sou forte em excesso – porque só com uma força inacreditável fui capaz, agora mesmo, de deixar o bilhete pousado em cima da cama. E aqui estou: a rua mostra-me que sou, por mais tectos que tenha, um sem-abrigo de ti.

Mas antes sem ti que sem a tua felicidade.

Vou deixar-te – mesmo que, por mais que não o entendas, sejas tu a deixar-me. Há-de doer. Há-de doer tanto, meu Deus. Há-de haver noites intermináveis numa cama qualquer – é sempre uma cama qualquer quando não é uma cama em que esteja eu e o teu corpo no meu. Há-de haver recordações intermináveis, a incapacidade de passar por alguns lugares, de ouvir algumas músicas, de ver alguns filmes. Há-de haver, até, a necessidade de chorar para sangrar melhor.

Viver melhor é muitas vezes a capacidade de sangrar melhor.

Há-de haver mais passados do que futuros. Hei-de querer sempre ceder, procurar-te de novo, querer convencer-me de que ainda posso reverter a situação a meu favor – e que a meu favor também poderia ser a teu favor. Mas depois chegará a lembrança das palavras, as tais três palavras (não sou feliz, não sou feliz, não sou feliz) como um refrão inesgotável, e voltarei à cama vazia, à vida sem tecto de te saber melhor sem mim.

Isto pode parecer uma carta de despedida. Mas é só uma carta de amor: a mais apaixonada das cartas de amor que te escrevi.

Quando fores feliz promete-me que te lembras de mim.

Fonte: Pedro Chagas Freitas in "Prometo Perder", o meu novíssimo livro
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