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Fui raptada, torturada e violada

Farida Khalaf vivia com os pais e os quatro irmãos em Kocho, uma pequena aldeia iraquiana que pertence à minoria étnico-religiosa yazidi. Sonhava ser professora de matemática quando, em Agosto de 2014, foi raptada por membros do Daesh e vendida como escrava sexual.

Fui espancada quase até à morte várias vezes, porque a gente do Estado Islâmico queria disciplinar-me”, contou numa entre­vista exclusiva para Portugal dada à Visão. Durante os quatro meses de cativeiro, foi violada, espancada e torturada. Tentou matar-se três vezes. Nunca abdicou das suas crenças e recusou sempre converter-se ao Islão. Conseguiu fugir, mas carrega as marcas de um infer­no que jamais esquecerá, e tenta lidar com o estigma de ser uma mulher violada. “Hoje, sei que fui vítima de um crime”, contou à revista.

Foto: LUX
Com 19 anos, Farida vive na Alemanha com a mãe e os irmãos, ao abrigo de um programa de proteção especial. Não sabe se o pai e o irmão mais velho estão vivos. O medo de represálias impede-a de dar a cara, de se mostrar, mas Farida quer que o mundo saiba o que lhe fizeram e aceitou contar a sua história à jornalista alemã Andrea C. Hoffmann, que escreveu o livro “A Rapariga que Derrotou o Estado Islâmico”. A Lux entrevistou Andrea.

Lux – Que menina encontrou quando conheceu Farida?


Andrea C. Hoffman. – Quando a vi pela primeira vez, não me parecia ser a mulher que tinha vivido tal pesadelo: agia como uma jovem normal que me rece­bia como visitante no seu contentor do campo de refugiados. Visitei-a com a assistente social da organização alemã WADI. O facto de ter sido apresentada por ela fez Farida confiar em mim. Nessa altura, apenas me contou os traços gerais da história. Percebi que havia qualquer coisa estranha na forma como falava de si própria: parecia estranhamente desapegada, como se estivesse a falar de outra pessoa. Era como se tivesse posto uma máscara para se proteger. Logo que tocámos em questões mais sensíveis, a máscara foi caindo, mostrando uma mulher muito mais vulnerável.

Lux – Foi doloroso para Farida relembrar o que lhe aconteceu?

A.C.H. – Foi muito difícil, obviamente. Por isso, tentei não a forçar, acompanhar o seu ritmo. Ela dizia-me o que queria, nada mais. Muitas vezes, também me senti depri­mida e tive pesadelos sobre o que lhe aconteceu. A história de Farida tinha de ser contada, eu devia-lhe isso.

Lux – Como é que ela lida agora com a vergonha e a culpa?

A.C.H. – Sente uma vergonha muito grande. Não se sente culpada, porque sabe que ela é que é a vítima, e chama criminosos aos homens do Estado Islâmico, mas o seu sentimento de vergonha está a ficar pior à medida que o tempo passa, e especialmente desde que a sua mãe e os seus irmãos mais novos voltaram. Enquanto ela ainda estava no campo de refugiados, era mais fácil, uma vez que todos tinham histórias semelhantes à dela. Acho que teria sido melhor para ela ficar afastada da comunidade yazidi por um tempo. Assim, não teria de se confrontar a toda a hora com a forma como eles pensam. Estando na comunidade, não tem hipótese de adotar um ponto de vista dife­rente.

Lux – A fé de Farida mantém-se?

A.C.H. – As suas fortes crenças religiosas ajudaram-na a sobreviver durante o cativeiro, e também a sobreviver ao rescaldo do que lhe aconteceu. Farida tem muito orgulho por nunca ter repudiado a sua crença, apesar de toda a pressão que sofreu para o fazer. Arriscou a sua vida para não trair o bem, da forma como ela o vê. Ao mesmo tempo, é difícil para ela lidar com as regras morais e as suas convenções. Na forma de pensar dos yazidi, a vida acabou para Farida: não pode casar nem ter uma família. Isso per­tur­ba-a e impede-a de recu­pe­rar completamente.

Fonte: LUX

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