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Sábado 10 da manhã assisto a isto

Eram 10 da manhã de um qualquer Sábado. A miúda da pastelaria teve dificuldade em encontrar algo parecido ao que o indivíduo lhe pediu. Um bagaço duplo num daqueles copos-balão enormes!
 
A cara dele não tinha uma cor muito diferente da farda vermelha da miúda da pastelaria. Enquanto isso, outras pessoas pediam cafés, meias-de-leite, torradas e bolos... Cá fora, à entrada, ficou a mulher: franzina, com roupa escura do século passado, rosto branco, rugas antes de tempo, olhos sem olhar, boca sem sorrir... teria uns 45 anos, talvez 50... muito provavelmente 200!
Foto: Pinterest
Ele resmungava qualquer coisa imperceptível enquanto os 45 graus da bebida branca do copo-balão deslizava pelo seu esófago abaixo. Fez algumas interrupções para vir à entrada da pastelaria descarregar o hálito nos quase farrapos que ali estavam... não, não estavam... há muito que aquele corpo franzino já não tinha vida. Por isso o tempo para ela já não importava...
 
Ele nem conseguiu erguer a cabeça para beber até ao fim, pousou o copo-balão com algum barulho, cambaleou em direcção à saída, resmungou de novo, ela baixou ainda mais os olhos que não olhavam, cerrou ainda mais os lábios que se tinham esquecido como era sorrir... e os dois desapareceram no meio da multidão anónima...
 

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