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Conheci um sem-abrigo com uma história linda, emocionei-me!!

Numa passagem pela Avenida da Liberdade em Lisboa, dei de caras com uma pessoa que me fez saber a verdade. Sim a verdade de viver na rua.

Chama-se Joaquim (nome fictício a pedido), homem de 36 anos, jovem ainda, com muita barba, unhas grandes e com um português perfeito.

Estava a passear e ouvi o Joaquim a pedir algo a um casal, e ao olhar, vi aquela figura um pouco mal tratada mas com um português perfeitíssimo. Foi o que me chamou logo a atenção.
Foto meramente ilustrativa (jornal CRESCER)
Esperei um pouco e dirigi-me a ele. Perguntei-lhe o nome e idade e convidei-o a tomar algo num café próximo. Não me pediu nada, mas fiz questão de lhe oferecer um lanche. Por norma nunca dou dinheiro, ofereço sempre algo para comer quando me pedem.

Contou-me a sua história de vida, de uma forma peculiar. Observei e ouvi com muita atenção. Só me pediu para não colocar a sua foto. Vou resumir um pouco a história e tentar ser o mais eficaz possível a descrevê-la.

Bem, passo a citar esta história para ficar na memória:

No meio de tantas palavras surge o que lhe aconteceu........

" Sabes Sérgio, posso parecer muito sujo, o que é verdade, pois não tomo banho a algum tempo. Estas barbas contam com um bom tempo, mas também não as quero tirar. Durmo aqui na rua, houve alturas que não queria, mas agora habituei-me. O que faço todos os dias é simples, peço algo para comer, não quero dinheiro, só quero paz na minha cabeça. (eis o que me fez confusão, "só quero paz na minha cabeça")

Nasci com uma família grande, estudei como toda a gente e vivi a minha adolescência de forma normal. Namorei, celebrei natais, vivi até aos meus 30 anos uma vida normal. Casei, tive um filho. Tinha trabalho, no Porto (onde vivia).

Até que um dia tudo se quebrou, desmoronou......a minha família aos poucos foi desaparecendo como é normal, as pessoas envelhecem e morrem, outras ficam doentes e morrem e assim foi até ficar só com uma irmã. Nunca a contactei, já pensei nisso, mas não quero, acho que a minha cabeça não vai aguentar lembrar novamente tanta coisa.

De um momento para o outro, as únicas pessoas que tinha e que amava incondicionalmente faleceram (disse com uma lágrima no olho), sabes, á anos que não tocava neste assunto....Viajávamos de carro na autoestrada quando tivemos um acidente. Eu ia a conduzir, a minha mulher e filho não sobreviveram....nunca me perdoei, mesmo tendo a consciência de que não tive a culpa, podíamos era ter ficado aquele dia em casa, só isso (disse a chorar).

Desde essa altura deixei tudo, casa, trabalho, vida....sim a minha vida agora pouco significa. Vou enviando uns alimentos cá para dentro para ver se vai aguentado, mas quando um dia parar, parou. Não tenho medo de morrer, de sofrer isso já eu conheço bem. Não quero ajuda de ninguém, e digo-te Sérgio, o que mais quero é paz na minha cabeça, talvez esta seja a única forma de a ter."

Ainda me contou mais coisas, mais pormenores da sua vida, os quais não quero relatar aqui. Acho que o principal foi dito. O importante está aqui para que se possa entender a vida de mais um ser humano nesta Lisboa.

Fiquei emocionado, como poderia não ficar. Quando me vim embora ainda me disse com um ar um pouco ou tanto sorridente, que se alguém viesse ter com ele da minha parte que ficaria chateado comigo...e muito. Existem coisas assim, o que posso fazer.

Para finalizar, disse-lhe que de todas as vezes que ali passar o convidaria para tomar algo. Sabem qual foi a resposta, impressionante........

"se vieres aqui de passagem, não por obrigação até tomo algo novamente contigo, se apareceres por obrigação e eu sentir isso, vou pedir dinheiro a alguém e quem paga a conta sou eu"

Escrito por: Sérgio Lemos Figueiredo

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