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Assis Milton: A Homenagem emocionante

Ontem, dia 20, deu-se a passagem dos 11 anos do desaparecimento fisico de Assis Milton. Deixando uma obra, de inclusão dos deficientes visuais, chamada Associação Promotora de Emprego para Deficientes Visuais.

Sob a pergunta"Que memórias têm do Assis?", vários foram os antigos formandos, que com ele cruzaram e quiseram estar presentes em Chelas, sede da instituição. Eu, obviamente não poderia faltar, pois estive com ele 4 meses, que se intensificaram e deram origem a uma amizade.
Foto: Rogério Rosa
Para quem não sabe de quem se trata, eu apresento-o: Trata-se de um homem, nascido na Índia, e que tal como todos teve sonhos. Como deficiente visual, que era, um deles seria acabar com o estigma de pobreza, desprezo e indiferença , com que a Sociedade olha os deficientes visuais. Fundou o seu primeiro Instituto de cegos na cidade da Beira, Moçambique, do qual, teve o nome de Instituto Assis Milton, hoje, Instituto dos Cegos. Veio para Portugal, e fundou a então Associação Promotora de Emprego para Deficientes Visuais, em Chelas. Dar autonomia aos deficientes que vinham do centro, sul e interior, era um dos seus objectivos.

Falar hoje, 11 anos depois do Homem, do ser humano que foi, do amigo e de tantas outras qualidades dele, é tão difícil, quanto gratificante. Conheci-o quando a 6 de Janeiro de 1988, fui para a APEDV. Era 2a. feira, 9h da manha. Dirigi-me ao seu gabinete. Conversámos, disse ao que ia e ele encaminhou-me para o Gabinete de Relações Públicas. Ali permaneci ate Abril, altura em que acabei de sair. Nesses 4 meses, as conversas foram-se multiplicando, e acabou por carinhosamente me apelidado de "Rocambole", nome devido a uma história que lhe contei, de uma discoteca no Bairro Alto, que já não existe há muito. Era um prazer, aquele homem, simpático, nada patrão, muito humilde e um verdadeiro homem de causas!

Um dia, estava eu no seu gabinete, a olhar a sua estante de livros e fomos falando de tudo. De mim, de alguns acontecimentos, que muito o entusiasmava, saber, pois tratava-se de uma história de vida. De repente, virei-me e peguntei-lhe, uma vez que ele tinha uma história riquíssima, de uma nobreza e de um exemplo admirável de história de vida, porque não, escrever um livro? Ele estava entretanto refastelado para trás no seu cadeirão, logo se colocou para a frente e meteu um cotovelo na mesa e a mão no queixo, olhou-me, sorriu e respondeu, que não tinha pensado nisso, mas que era uma ideia. Tinha sempre uma palavra amiga, passava sempre por todos os sectores para dar os bons dias e por fim, ia para o seu gabinete.

Um momento trágico abalou um dia a instituição. A morte do Paulinho. Um garoto vivaço, filho da empregada das limpezas, a D. Maria. Era 6a. feira, entrava eu na cozinha, com a Cozinheira D. Esmeralda. O miúdo corria, e não queria parar, cheio de energia. Eu dei-lhe uns rebuçados, a ver se ele sossegava. Lá abrandou e como estávamos no final do dia de trabalho, fomos embora. Na semana seguinte, tivemos a noticia inesperada, o miúdo foi ver a bola com os irmãos mais velho, escorregou e bateu com a cabeça no cimento. A demora da ambulância e depois, achando que aquilo pudesse passar, acabaria por morrer. Na APEDV,o choque apanhou todos! O Dr. Assis Milton, ficou consternado com a situação e logo se prontificou a ajudar em tudo o que fosse preciso. Lá fomos todos ao velório. Fui com a Esmeralda. O velório foi na Igreja do Beato. Entrámos, e eu fui logo junto do caixão, e olhei-o. Deitado, vestido de fato azul escuro, bem caracterizado, sem deixar a imagem de morto,mas de quem estaria a dormir. Sabe-se que, na sua escola, a Escola Luís António Verney, fechou para lhe prestar a ultima homenagem e despedidas dos colegas e professores.

Eu, fui á minha vida e 18 anos depois, senti um pressentimento. Tinha de ir visitar o Assis. Fui então visitá-lo, e qual não foi o meu espanto, ele tinha estado internado e naquele, era o seu primeiro dia de ida também. Levou-me ao seu gabinete, acompanhados de mais um elemento, sentámo-nos e começamos a falar. Depois de uma meia hora naquilo, o Assis, disse que tinha uma coisa para me dar, e relembrou-me de há alguns anos, ter sugerido, que escrevesse uma livro,respondi que sim que me lembrava e então, ele estendeu-mo e disse que era meu. Autografou-o. Fiquei com uma sensação estranha, pois não sabia que ele tinha levado a ideia a sério e que escrevesse mesmo e se tivesse lembrado, que fora eu, quem o sugeriu. Fiquei muito contente e despedimo-nos. Mal sabia eu, para sempre!

Ontem foi o momento de recordar, de reviver histórias de todos os que quiseram partilhar. Dos 3 filhos presentes, de 4, sendo que uma não poderia estar, por se encontrar fora do país. Histórias, que ficarão eternamente vivas em cada um de nós, que o conheceu, sejam técnicos, filhos, formandos, e amigos de longa data. Uma retrospectiva, que a Filomena Cancela, técnica, tinha feito com a ajuda da outra técnica, a Ana Martins, que foi uma das únicas, que esteve desde o inicio de tudo e claro, um texto emocionante, escrito por uma das filhas do Assis, lido pela Xira, cunhada do referido homenageado.

No final, a distribuição do livro "Estrelas do Meu Céu Escuro", que o Assis, escreveu e que eu tinha sugerido. Entretanto, foi criado numa plataforma chamada Wikipédia, sobre a vida e obra do Assis Milton.

O homem nasce e morre, mas a memória, e a obra permanecerão sempre vivas em todos quantos o conheceram! Obrigado, Assis, por me ter escolhido para ser seu amigo!

Escrito por Rogério Rosa - Repórter de Memórias

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