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Histórias de Vida-José Carlos,o meu primeiro nome!

Quando na passada semana, resolvi aceitar dar mais uma entrevista, e pensei, o que poderei acrescentar ao que já disse na Revista Saúda de Fevereiro? Foi então que me lembrei de um facto muito importante. Falar do que nunca falei, da minha família!

Estava lançado o mote: Arrasar parte da família. Vingar os já 50 anos de mágoas, injustiças, invejas, indiferenças, falta de amor e de afectos. Onde durante toda a infância ouvi da minha mães, se é assim, que deverá ser chamada, uma mulher, leviana, sem educação,sem formação, triste jovem ignorante, que também não recebera o mesmo dos seus pais? Mas, e quando o Sarampo me saltou á vista, já com 18 meses de idade, era na mente desta tonta e dos meus avós maternos, a despachar para outro sitio qualquer.

Desde que me tornei actor mais permanente e a dar entrevistas, nunca referi a família. Nunca achei, que fosse importante ou interessante dar a conhecer, no entanto, e a pensar em tudo o que me fizeram passar, e em jeito de vingança pessoal, achei dar a conhecer ao público, a família desinteressante, que infelizmente nunca a escolheria, pelo contrário, bem preferia ter sido órfão!

Mudança de nome. Fui baptizado pela primeira vez na Igreja de S. Francisco de Paula, à Pampulha em Alcântara, com o nome de José Carlos. Era o nome do meu pai, o desejo dos meus avós, que eu fosse também. Mas, quais o diabo, na figura da mãe e avós maternos, que isso não acontecesse e obrigaram o Padre Vicente, então pároco da Igreja, ameaçando e abrindo guerra,, para que fosse alterado o registo. Tudo correu como aquelas bestas queriam.
 
Só poderia ter um de 2 nomes, ou sejam, António, porque nasci no dia a seguir ao Santo e ou Francisco, nome da própria Paróquia. Nem um, nem outro. Além de varinagem, ainda tiveram o mau gosto e pasmem-se, foram-me colocar o nome da pessoa que nunca gostaria de mim, até á sua,dele, morte, ou seja, Rogério. Passei pelos colégios de cegos. Primeiro o Centro Infantil Helen Keller, durante 5 anos, e depois pelo Instituto António Feliciano de Castilho, a Campo de Ourique. Aqui permaneci 6 anos em regime de internamento. As visitas não eram nenhumas, as as obrigatórias eram de pai, e de mãe, ambos há muito separados. Fui entretanto para a Colónia Balnear Infantil de"O Século", mas separado da minha irmã mais velha. Ela num ano e eu noutro ano a seguir. Levando por isso, ja vários anos de indiferença, e de desprezo.
 
Nunca cheguei a perceber, e nunca chegarei a perceber, como foram capazes de doar uma criança. Era sempre corrido da casa da minha prima, quando dava o cheiro á minha presença lá em casa, á saloia da avó materna! Feita monga, deslocava-se a pé para discutir com a minha prima,ralhar comigo, que não me queria perto da minha irmã. Tinha eu na altura uns 7/8 anos. Anos depois, a minha mãe, revelou que eu era um filho indesejado e que tinha vergonha de sair comigo. Humilhava a minha avó paterna, de andar a pedir para o neto que era cego, e esqueceu-se que ela andava atrás dos homens , que até ia desfilar num carro na mesma rua da sogra.

Anos depois, acabei como sem abrigo, ao longo de uma ano, onde vivia numa pensão com 12 indivíduos numa camarata, que era tão acolhedor, que preferia muitas vezes dormir nos bancos de jardim, como tantas vezes aconteceu no jardim do Torel. Chuva, vento, Páscoa, Natal e Fim de Ano, datas marcantes para alguém portador de deficiência visual e de 19 anos.

Saí dessa vida e fui para a Associação Luís Braille e Liga de Cegos João de Deus, que hoje e desde 89, se chama Acapo. A partir daqui, a minha vida não mais seria a mesma.

Um casamento falhado, uma vida de luta, de sofrimento e de sem objectivos de vida nem tão pouco de plano pessoal. Entretanto, apoiado e ajudado na Acapo, e entregue a formações. Apedv, chelas, foi o caminho a seguir. Conheci um homem absolutamente bom. Homem sociável, amigo, chefe, um bom conselheiro e, preocupado com todos da sua instituição, que fundou. Culto, conversador, um filósofo. Passava horas esquecidas por vezes a falar com ele no gabinete e fora dele. Fui para ele o"Rocambole", pois foi a partir de uma piada que contei sobre esse nome , que ele acabou por me baptizar e assim ficou. Cerca de 18 anos depois, fui visitá-lo e nem aproposito, mal sabia eu, que seria a última vez que o ia ver. Fomos para o gabinete.
 
Contou-me que por coincidência, tinha saído no dia anterior do Hospital, onde mais uma vez estivera internado. Nunca soube da doença e que alguma vez estivesse internado. Olhei para ele, enquanto ia me contando coisas, respondendo sempre ao que me perguntara. De repente, senti emoção nos seus olhos, fiquei preso aquele ambiente, que estava a ser pesado. Até porque tinha o meu pai hospitalizado e, talvez isso estivesse a ser também um factor marcante para mim. Foram minutos de alta tenção! Olhei por momentos para os 2 que estavam á minha frente e de repente, o Dr. Assis, numas das muitas conversas que tivemos 18 anos antes, me disse: "Lembras-te de um dia me teres dito, que escrevesse um livro, sobre as minhas memórias, da fundação desta Associação?-"Lembro-me, claro"- "Espera, um pouco"- Saiu e regressou com um livro e disse contente:-"Toma, aqui o tens". Autografou-o e entregou-me. Naquele momento, olhei para ele e para o livro e fiquei sem saber, se ria, se chorava. Daquele momento tão constrangedor, optei por simplesmente agradecer a lembrança!

Os 4 meses que passei pela Apedv, foram de tal modo tensos e intensos, que valeram por anos. A morte do Pulinho, filho da empregada da limpeza, a D. Maria, foi outro marco. Viu-o por 2 vezes. Lembro-me de uma 6a. feira, estava eu na cozinha com a Esmeralda, a cozinheira e o Carlos Dinis e um miúdo de cerca de uns 12 anos, a correr e a saltar. Demos-lhe uns rebuçados para ver se ele parava um bocado. Um miúdo vivaço e alegre,nada se fazia prever o desfecho trágico. Nesse fim de semana, teria ido ver a bola no Oriental com os irmãos mais melhor e sem se perceber o que aconteceu, caiu, batendo com a cabeça no cimento da bancada, onde estaria sentado. Fez traumatismo craniano e levou 7h a ir para o hospital.
 
Nada a fazer, pela demora, pela chegada da ambulância e pelo SBV (Suporte Básico de Vida), reanimações e primeiros socorros. Viria a falecer nessa madrugada. Na 2a. feira, recebe-se a noticia na Apedv e o Dr. Assis, imediatamente, apoia, conforta e ajuda no que estiver ao seu alcance. O corpo do garoto segue então para o velório, Igreja do Beato. Fui com a Esmeralda ao velório. Igreja pequena,e ainda por cima chovia. Fui até á beira do caixão e olhei para o miúdo. Deitado de fatinho azul vestido, que parecia que dormia. Não tinha ar de morto! Muito perto, a mãe dele e os padrinhos que vieram da terra. Esteva tão perplexo, que nem sabia o que dizer,nem o que pensar. Em silêncio, olhei, parei, fiquei estático e ao fim daqueles longos minutos, saí. Soube depois, que o pai dele, entretanto preso fora lá com alguns guardas prisionais e que a escola onde frequentava, a Luís António Verney, teria ido em peso.

A Apedv, foi o meu quartel general durante 4 meses e depois, parti para aventura de projectos do OTJ e do IJOVIP, hoje nem ninguém sabe o que isso era,

A partir de 1996, e depois de ter estagiado na Câmara Municipal de Lisboa, no Gabinete Técnico da Mouraria, acabei por ir parar á Junta de Freguesia dos Anjos, que me enviou para a Associação Pró-Infancia de Lisboa. Um infantário que tinha tudo, desde os 3 meses aos 10 anos. Comecei por ser ajudante do porteiro, com serviços  externos. Nos primeiros 6 anos, a coisa correu ás mil maravilhas. Depois, voltei a casar, que graças a Deus continuo casado e bem casado, e deu-se mais coisas, entre as quais, ir desfilar nas Marchas Populares. Fui Marchante e Aguaceiro da Marcha de S. Vicente de Fora, durante 3 anos, ou seja, de 98 a 2000. Tornei-me Bombeiro Voluntário e Escuteiro de Santa Engrácia, onde me mantive durante uns 7 anos, aproximadamente e sem grande acolhimento por parte deles.

Tudo consegui sem família e sem amigos e hoje, posso dar graças Deus por isso, que foi Ele, que me guiou sempre, que me protegeu dessa família de merda. Entrei para faculdade. Primeiro para o Isce-Ramada, para a licenciatura de Educação Social, com estágio na Casa Pia de Lisboa. Mia tarde, transitei para a Universidade Lusófona, para a licenciatura de Serviço Social. Complementando com voluntariado durante 28 anos e de muitas formações profissionais. Fui durante todo o ano de 2010, com marcação serrada no Santo António, por um Director de Pessoal, borra botas, para que eu me saturasse e saísse, a pedido do velho escroque, o presidente.
 
Como teimei em continuar, e de tanto se esforçarem para ver se eu saia, dando-me coisas para as quais não via, limpezas e ate queriam que levasse todos os vidros do atl, e do salão e depois que fosse varrer o quintal. Claro, que não fiz nada daquilo, até porque tinha um colega que fazia isso e colocaram-me no refeitório. Acabei por sair, não me deram carta para o Centro de Emprego, ficaram-se por uma indemnização. Ao fim de 15 anos de trabalho e a fazer de tudo e sem dizer que Não! Fui uma moeda de troca de favores entre eles e a Junta de Freguesia. Não fui eu que pedi emprego,nem os conhecia de lado nenhum. Pagaram-me vem todo o meu sacrifício, e apoio naquela casa.

Passei os piores 3 anos seguintes da minha vida. Só comparado a sem abrigo. Tanto que sofri por falta de trabalho, de subsidio de desemprego, ou Rendimento Social de Inserção, devido àquela grande besta do presidente e do seu criado director de pessoal, que por acaso acabou também ele afastado da instituição.

Hoje, sou actor profissional, Assistente Social de Formação, Frequentei mais uns 4 cursos de formação profissional e desempenho o cargo público de Juiz Social no Tribunal de Família e Menores. Hoje, sou cronista numa revista online e repórter de um site de histórias de vida. Dou entrevistas, quando tenho algo a acrescentar. Quanto á minha família, apenas se resume à minha esposa e família dela que me acolheu, como a minha nunca o fez!

Há com certeza algumas excepções, há alguns membros da minha família que ainda vão me prestando alguma atenção, mas só isso também! Tudo mais ou menos, que acabei de escrever sairá na Revista Cais de Abril,mas nada tão extenso como esta crónica.

Escrito por Rogério Rosa

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