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Não tenhas medo de viajar sozinho!!

É um facto indesmentível que há muita gente que não viaja por falta de companhia. Dizem que não gostam de viajar sozinhos, que preferem ter com quem conversar, que a viagem deve ser partilhada. Ou que sozinhos têm medo. O curioso é que a maioria nem sequer se deu a oportunidade de experimentar viajar sozinho.

Por outro lado, se perguntar a alguém que viaja sozinho sobre essas suas experiências, o mais provável é que diga que essa é a melhor forma de viajar, que não se imagina a fazê-lo de outra forma e que, na verdade, durante as viagens só está sozinho se realmente quiser.

Nas minhas muitas viagens pelo mundo, já tentei viajar com amigos ou conhecidos e o resultado foi quase sempre desastroso. Já viajei em família e muitas coisas boas aconteceram, embora a experiência tenha proporcionado muito menos contactos com outras pessoas. E viajo também com pequenos grupos enquanto líder Nomad. Mas a maioria das vezes viajo sozinho. Não é melhor nem pior, mas é seguramente diferente.

Já aqui escrevi uma lista de coisas que eu diria a quem planeia fazer a primeira grande viagem, onde propositadamente não abordei a questão de viajar sozinho, porque acho que merecia ser melhor desenvolvida num texto autónomo. Esporadicamente recebo mensagens de viajantes indecisos sobre a decisão de partir numa aventura em solitário; e a todos respondo o mesmo: “Vá!”.

Não tenha medo de viajar sozinho

É mais fácil do que parece


Há milhares de outros viajantes a fazer o mesmo, pelo que não está a fazer nada de único ou extraordinário. Claro, é a sua viagem e vai provavelmente mudar a sua vida, mas não está a “descobrir a roda”. Viajar foi provavelmente uma grande odisseia há muitas décadas; agora é demasiado fácil para justificar a maioria dos medos. As dificuldades que sentir (de qualquer tipo) já foram vividas por muitos outros antes de si, pelo que, se tiver necessidade de ir mais descansado, pode facilmente ler sobre essas experiências e melhor se preparar para ultrapassá-las.

Todas as dúvidas que hoje o assaltam enquanto sonha com a viagem – e lhe parecem enormes obstáculos -, no terreno revelar-se-ão coisas pequenas e simples de ultrapassar. Sim, é fácil obter um visto; lavar a roupa; encontrar onde dormir; levantar dinheiro nos ATM; manter contacto com amigos; encontrar companhia; não se expor a riscos desnecessários. Estou até certo que sabe a maioria das respostas para as suas dúvidas – só falta dar o clique que desligue o “complicador” que todos temos dentro de nós.

Nunca vai estar realmente sozinho (a não ser que queira)

Há muitos anos, li uma frase que me ficou gravada na alma. Não sei o seu autor, mas dizia mais ou menos o seguinte: “se viajares sozinho vais conhecer muita gente; se viajares com outra pessoa vais conhecer alguma gente; se viajares com três ou mais vão-se conhecer bem uns aos outros”. Subscrevo inteiramente.

Quando viaja sozinho, está muito mais predisposto para conhecer gente. Interagir e socializar são necessidades básicas do ser humano. Vai encontrar viajantes com quem poderá partilhar uma refeição, um pôr-do-sol, um quarto de hotel, um dia, uma semana ou mais de viagem, dependendo da empatia criada e da vontade de ambos.

Na verdade, só está desacompanhado se realmente quiser. E eu não conheço ninguém que se tenha arrependido de fazer uma viagem sozinho.

Não fique à espera de um amigo ou namorada

Acontece frequentemente. Uma pessoa deseja muito fazer uma grande viagem, desafia um ou dois amigos a embarcar na aventura e acaba por desistir do seu sonho porque um(a) amigo(a) ou namorado(a) acabou por não poder, não querer, não se decidir atempadamente. Não cometa esse erro. Se ficar à espera que alguém possa ou queira ou ganhe coragem, a sua viagem nunca acontecerá. E o mais certo é que se arrependerá de não ter ido.

Quando dei a minha primeira volta ao mundo já era casado e a minha mulher optou por não abandonar a sua carreira de jornalista no seu jornal de eleição. Legitimamente, escolheu o trabalho em vez da viagem – era o meu sonho, não o dela. E sabe o que me disse assim que se apercebeu que eu queria mesmo viajar durante mais de um ano? “Não quero ser responsável por não concretizares o teu sonho; tens o meu apoio”. E eu fui sozinho. (sim, 10 anos depois continuamos juntos).

Claro que, se prefere mesmo viajar acompanhado, se isso está mais de acordo com a sua personalidade, procure alguém que seja compatível com a sua forma de ser, em termos de gostos, de flexibilidade, de ritmo de viagem. Alguém que esteja disposto a fazer cedências, porque a viagem passa a ser a vossa viagem, não a sua ou a dele(a). Escolha alguém com quem se imagine a partilhar as 24 horas de um dia, todos os dias, durante muito tempo.

Mas, se esse alguém não aparecer, não desista da sua viagem. Vá! Não deixe de ser feliz por falta de companhia. Até porque é muito provável que a sua experiência seja ainda mais rica e interessante por estar só. Vai ganhar um autoconhecimento com que nunca sonhou, vai amadurecer e vai fazer muitos mais amigos do que se viajasse acompanhado.

O seu melhor amigo não é necessariamente um bom companheiro de viagem

Tenho vários amigos e amigas de quem gosto muito, que admiro e respeito, e com quem gosto de estar à mesa de um café ou restaurante, a confraternizar numa noite de copos ou a divertir-me num concerto do festival Andanças. Mas alguns deles têm feitios, interesses e gostos tão diferentes dos meus que, em viagem, tenho a certeza que seríamos incompatíveis.

É a mais pura verdade: nunca convidaria alguns dos meus melhores amigos para viajar comigo. Gosto deles, mas não me veria a partilhar as 24 horas do dia durante meses a fio.

E o mesmo se aplica a um casal de namorados. Viajar a dois pode ser uma experiência fantástica, mas não é para todos. Sim, o seu melhor amigo ou namorada não é necessariamente o melhor companheiro de viagem. Tome isto em consideração na hora de decidir entre viajar sozinho ou acompanhado (a não ser que queira “testar” a relação, pela simples razão de que uma das melhores formas de conhecer uma pessoa é viajar com ela).

Qualquer que seja a opção, não deixe que os medos o impeçam de ir atrás do sonho. Porque o mundo está realmente à sua espera, nem que para isso decida viajar sozinho. Ou melhor, principalmente se viajar sozinho. Vai ver que não se arrepende.

Nota para as leitoras deste blog

Talvez esteja a pensar: “dizes isto porque não és mulher“. É uma atitude comum, atribuir à condição de mulher um handicap para não se viajar sozinha. Não sou mulher, é um facto, mas conheço dezenas de mulheres habituadas a viajar sozinhas. Jovens e menos jovens.

Acredito sinceramente que o mundo seja tão seguro para um homem como para uma mulher mas, em vez de confiar no que eu digo – sendo homem não posso falar com propriedade sobre este assunto -, leia blogs de mulheres-viajantes e forme a sua própria opinião. Os blogs Adventurous Kate de Kate McCulley, The Everywhereist de Geraldine De Ruiter, Legal Nomads de Jodi Ettenber, A Little Adrift de Shannon O’Donnell e Bacon is Magic de Ayngelina Brogan (todos em inglês) são bons pontos de partida, mas há dezenas de outros blogs de viagem escritos no feminino que a podem inspirar e ajudar a ultrapassar todos os receios.

Se prefere contactar com alguém em português, fale com a Ana Isabel Mineiro do blog Comedores de Paisagem. É uma das grandes viajantes portuguesas e há décadas que viaja sozinha para todo o mundo.

Fonte e Foto: Alma de Viagante

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