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A minha passagem de ano numa montra de Lisboa

 
Hoje, dia 1 de Janeiro de 2018, recebemos o primeiro email com uma história emocionante, de uma senhora que ficou sem família, casa, carro, esperança e sem mais com quem contar dorme todas as noites na Baixa de Lisboa. É com este email que nos deixou a sua experiência de fim de ano. Não esquecendo, recebemos a carta por email.....só não sabemos se é o da doa rosa ou não...mas isso pouco interessa nesta altura, certo?

"No momento estou dentro da minha casinha, com uma litrosa (é assim que os jovens chamam, a uma garrafa de litro de cerveja) a comemorar a minha primeira passagem do ano na rua. Não é que já o tenha feito, mas, no fim da noite voltava sempre a casa. Desta vez, trouxe a casa comigo, quem diria!!

Sou a rosa, uma mulher de 39 anos. E é verdade, vivo na rua, aqui na Baixa de Lisboa. E digo-vos, a vista á noite, com o Tejo á minha frente é espantosa. Talvez um dia queiram experimentar, eu aconselho pelo menos uma vez na vida, é revigorante.

Faz uns meses que vivo assim, porque tive problemas com a minha família. Não tenho filhos, tinha marido, mas a minha irmã ficou com ele. Ficou com a minha casa, e vive lá nesta altura.

Não aguentei a situação. Fui-me abaixo. Estou e continuarei depressiva. Sabem, foram 15 anos de casamento, com trabalho, dinheiro, férias e família. De um momento para o outro tudo desmoronou....

Não entro em pormenores, é a minha vida. E até podia ter trabalho, mas com a minha cabeça desta forma é impossível.

Mas vamos lá....Mais de 5 meses na rua. Todos os dias as pessoas passam, é como se fossemos invisíveis, ninguém nos vê. Desde que não incomodemos, não há problema. Algumas associações dão-me comida.

Muitas vezes, estou deitada dentro da minha casa de cartão, com pessoas a jantarem mesmo á minha frente numa esplanada, olham, vêm e continuam como nada fosse.

Hoje, dia de festejos, o filme é o mesmo. Tudo bem disposto, a sorrir, danças, beber, comer. Continuam a passar e não me verem....porque será, sou mesmo invisível?

A vossa sem-abrigo "invisível" de Lisboa."
 
Foto: Agência Ecclesia